Pimenta do Reino

  • Em prosa e no verso

    Publicado por @hermes em 02/11/2011 às 23:04 pm
    Por RAMALHO LEITE*
    A minha última incursão pelo mundo das letras foi no ano de 2007, quando publiquei O Poder de Bom Humor, uma coletânea de histórias envolvendo personalidades da política paraibana e suas tiradas de bom ou de mau humor, sempre com desfecho assinalado por muita verve ou ironia. O modelo, imortalizado por Sebastião Nery, passou a se denominar folclore político. Este novo trabalho – Ramalho Leite, em Prosa e no Verso-Mais Histórias do Folclore Político da Paraíba – é a quarta tentativa de conferir à transitoriedade dos meus escritos o selo da permanência. Antes, já publicara Dá licença, Um Aparte, e Nos Espelhos do Palácio.
    Autores consagrados na prosa e que se inspiram no Parnaso costumam reunir sua produção literária em volumes que intitulam Em prosa e verso. Não sendo dotado de veia poética, dificilmente poderia repetir feito semelhante. Na verdade, o título do livro, Em Prosa e no Verso, sugere uma “pegadinha”, pois não se trata de edição poética, mas, sim, da utilização do “verso” da página onde a prosa está inserida. Advogados militantes não costumam recorrer ao latim e escrevem, ao fim da página, “vide verso”? Então…
    O livro que o jornalista Gonzaga Rodrigues prefacia é uma despretensiosa coletânea de artigos publicados em jornais ou em páginas virtuais, reunidos pela afinidade do assunto e sem preocupação de ordem cronológica. Em alguns textos invoco fatos passados e os comparo com os acontecimentos assemelhados do presente, destacando a evidência de que, pelo menos na política, a história se repete, não raro como farsa, mudando apenas os protagonistas.
    Juntei farta documentação iconográfica que retrata mais de quarenta anos de minha vida pública, da vereança na  cidade de Borborema  à Assembleia Estadual Constituinte, passando pelo Congresso Nacional e pela diretoria do Banco do Nordeste do Brasil até o meu regresso à Velha Senhora- A União.
    Aqui o leitor vai encontrar desde o almirante Cândido Aragão, líder dos marinheiros em 1964,  até o general  Job Lorena, encarregado do inquérito do  atentado à bomba no Riocentro. De Carlos Lacerda a Fernando Collor, passando por Ernesto Geisel  e Tancredo Neves, sem falar na prata de casa, esta, em ilustre galeria na qual figuram de Ernani Sátyro a Ricardo Coutinho. Essa mostra fotográfica constitui, na minha casa, em Bananeiras,  acervo a que denominei Ramalho Leite entre anjos e demônios. O visitante escolhe quem é anjo e quem é demônio…
    Por fim, para agradar à minha vaidade, já que, como político que sempre fui, me preocupei constantemente com a opinião pública e, sobretudo, com a opinião publicada, transcrevo a Opinião dos outros, com textos de articulistas da imprensa local ou recebidos via internet, generosamente comentando a minha atuação nas diversas áreas em que  prestei meus modestos serviços.
    Sou e sempre serei um servidor público. O jornalismo foi para mim o primeiro degrau de uma carreira que, costumo dizer, não foi brilhante nem constante, teve altos e baixos, mais baixos do que altos, mas, decentemente vivida, graças a Deus.
    (APRESENTAÇÃO DO LIVRO “EM PROSA E NO VERSO”)
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  • “Governo é pra sofrer…”

    Publicado por @hermes em 05/10/2011 às 7:54 am

    Ramalho Leite*

    A Paraíba em um passado recente tinha o seu cenário político povoado por algumas figuras populares que freqüentavam   não somente as solenidade oficiais, como a própria sede do Governo, tornando suas presenças, às vezes incômodas, impostas ao ambiente.

    Carbureto, made in Campina,  invenção dos gaudêncios, reinou no período de Ernani Satyro, convivendo em desarmonia com Caixa D’Água, o poeta de “minha mãe se abruma” e Mocidade, mais inteligente que todos, orador inflamado,  herdado de João Agripino que nutria por ele uma forte simpatia. Essa predileção  por Mocidade levou-o a permitir sua hospedagem nos fundos da residência oficial, no final do Cabo Branco. Além disso recebia uma pensão mensal paga pela Loteria do Estado.Mesmo assim, Mocidade era assíduo e contundente nas manifestações contra o Governo.

    Chamado pelo Governador, injuriado com o seu ingrato procedimento, apenas justificou:

    -João, governo é prá sofrer mesmo!

    E parlamentar governista também. Aplauso fácil se consegue na oposição. Mas há quem pense que ser  governo é só  auferir   vantagens. Colhe o bônus mas não aceita enfrentar o ônus de ser governista nas horas difíceis.

    Quando era Lider do Governo enfrentei inúmeros movimentos populares que ecoavam na Assembleia, perturbando as sessões com a presença de manifestantes nem sempre bem comportados. A vaia era o instrumento menos agressivo utilizado. Da tribuna enfrentava a turba sem receio. Era minha obrigação como deputado governista sustentar as teses emanadas do governo. Certa feita, servidores públicos invadiram o plenário ultrapassando a barreira da segurança. Ficamos vulneráveis a qualquer manifestação mais violenta. Carlos Dunga me chamou a um canto de parede e me advertiu:

    -Você como líder é o alvo desse pessoal. Tá armado?  Respondi que não.
     
    Então, ele e Pedro Medeiros passaram a me dar segurança. Sob as vaias de professores em greve,olhei para as galerias e desafiei:

    -Essas vaias não devem partir de professores. Os mestres são educados e passam boas lições aos seus alunos. Essa gente que grita e esperneia deve ter sido recrutada em redutos menos respeitáveis que a sala de aula.

    A gritaria aumentou. Nem eu ou qualquer  membro da bancada governista mudamos de posição pressionados pelo histerismo da manifestação.

    Hoje ainda há  parlamentares que se mantêm conscientes do seu papel.

    Sejam  governo ou oposição. Mas há também quem quebre  os compromissos  ao menor ruído contestatório das galerias. Estes falam  com um olho na plateia e outro na câmera de TV. Basta que o  apupo lhe alcance, ele muda o voto e sela compromisso com a torcida organizada. Conheci um, que dele se dizia: é fraco indo e voltando…

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    *Ex-deputado estadual, superintendente de A União, escritor e advogado

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